Finanças verdes: risco percebido a oportunidade real de retorno
15 junho 2026
A COP30, realizada no ano passado em Belém do Pará, deu visibilidade e ampliou o senso de urgência a um dos temas mais relevantes e desafiadores dos nossos tempos: como acelerar o ritmo do financiamento necessário para a adaptação climática, sobretudo nos países mais pobres e em desenvolvimento.
Neste contexto, o principal documento da conferência, intitulado “Mutirão Global: Unindo a Humanidade em uma Mobilização Global contra a Mudança do Clima”, trouxe como nova meta triplicar o volume de recursos com esse objetivo, para US$ 120 bilhões ao ano, até 2035.
Como consultores de investimentos que assessoram US$ 16, 5 trilhões em recursos privados e públicos globalmente, acreditamos que um dos maiores obstáculos que, até pouco tempo, dificultavam levantar recursos para financiamentos verdes, tinha relação direta com a sensação de alto risco.
Isso porque a falta de dados e transparência sobre os ativos não trazia o conforto necessário para que os agentes financeiros, por sua responsabilidade e dever fiduciário diante dos clientes, ficassem à vontade para indicar investimentos.
Isso mudou muito nos últimos anos, e a decisão de alocar recursos se tornou um processo muito mais assertivo e seguro, com projetos qualificados e retornos financeiros aos investidores.
No Brasil, algumas iniciativas importantes têm sido tomadas. Uma das principais diz respeito ao Eco Invest, maior programa de finanças verdes do país voltado à transição ecológica, que fechou o ano passado com mais de R$ 14 bilhões em financiamentos para projetos sustentáveis e prevê a realização de novos leilões neste ano.
O programa, liderado pelo Tesouro Nacional, combina recursos públicos e privados. Ou seja, adota o modelo de financiamento misto (blended finance).
Outra frente de destaque é o mercado de crédito de carbono. Aprovado no final de 2024 no País, é uma das principais apostas dos bancos no processo de transição climática, com diversas instituições financeiras se posicionando, durante a COP30, como lideranças do segmento.
Do ponto de vista das finanças corporativas, ainda em 2022, quando os papéis de Renda Fixa relacionados a emissões com critérios ESG (ambientais, sociais e de governança), começaram a ganhar espaço no Brasil, a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) criou um guia, no sentido de estabelecer critérios sobre ofertas verdes de títulos negociados no mercado.
Entretanto, o maior de todos os passos – aquele com potencial para destravar, de fato, os investimentos da transição verde no Brasil -, foi dado mais recentemente, quando houve a publicação, em novembro do ano passado, do decreto que institui a Taxonomia Sustentável Brasileira.
O documento, que define critérios sobre que atividades econômicas podem ser consideradas sustentáveis, serve de norte para que investidores mobilizem capital para projetos com impactos ambientais e sociais, que geram diversos benefícios aos pais, como a geração de empregos qualificados e verdes nas cadeias de geração e distribuição de energias renováveis, agricultura sustentável e gestão de resíduos, ente outros.
Além disso, outros setores da economia se mobilizam para dar suporte a essa agenda, como o de seguros, que contribui, de forma decisiva, provendo, com uso intensivo de dados qualificados, reforçados por Inteligência Artificial, análise de riscos e, na ponta, apólices que viabilizam a proteção de ativos.
A combinação de boas oportunidades de investimentos e a melhoria do ambiente regulatório deve atrair, nos próximos anos, parte da poupança de longo prazo do País.
A Abrapp, que representa as Entidades Fechadas de Previdência Complementar do País, projeta que esses fundos tenham fechado o ano passado com patrimônio de cerca de R$1,4 trilhão.
O conjunto de avanços mencionados posiciona o Brasil como player com ambiente alinhado às melhores práticas globais, e esse ambiente deve abrir caminhos para que o País consiga avançar nessa agenda estratégica de negócios.